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sábado, 26 de fevereiro de 2011

" O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente"

Fernando Pessoa - Autopsicografia - Cancioneiro

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Cinema arte

Lugares comuns

Marcelo Hessel











Trama argentina fala do amor na meia idade e valoriza sentimentos em meio à ruína econômica do país. Pensou em O Filho da noiva (El Hijo de la novia, de Juan José Campanella, 2001)? Pois o cinema portenho já mostrou que pode muito mais.


O filme em questão, dirigido por Adolfo Aristarain, se chama Lugares comuns (Lugares comunes, 2002), e a sua munição é ainda maior. Comove secamente, sem partir para o sentimentalismo, convence como crônica e se aprofunda ainda mais nas questões sociais do que o campeão de bilheterias de Campanella.

Pilar do cinema argentino desde a sua estréia como diretor em 1978, Aristarain, sessenta anos completos em 2003, faz do seu décimo filme um manifesto. Baseado no romance El Renacimiento do seu primo Lorenzo F. Aristarain, dá o seu parecer sobre a falência nacional com o habitual sarcasmo e o inconformismo de um pensador de esquerda. Para tanto, faz do protagonista da trama, o professor de Letras Fernando Robles (Federico Luppi, colaborador fiel do diretor), um legítimo alter-ego.

Na história, o professor Fernando acaba de ser aposentado na faculdade por limite de idade. Para o seu azar, e da sua mulher Liliana (Mercedes Sampietro, esposa de Luppi na vida real), a crise lhe tira a expectativa de uma remuneração razoável e de um sustento tranquilo.

Para espairecer, o casal viaja a Madri em férias e aproveita para visitar o filho Pedro (Carlos Santamaría), que adotou a Espanha como casa.

Fernando e Liliana já moraram em Madri, durante o exílio em pleno regime militar. Agora, Fernando não aceita a postura do filho. Critica-o por ter abandonado a Argentina democrática de livre vontade, por ter escolhido uma carreira bem paga em detrimento de verdadeiras conquistas.

Pai e filho se desentendem. De volta a Buenos Aires, Fernando e Liliana percebem que a situação pede sacrifícios. Então, vendem o vasto apartamento no rico bairro de Palermo para comprar um sítio barato e plantar flores em Córdoba. Mal comparando, seria como um intelectual paulistano que decide se mudar para colher soja em Cuiabá.

O conflito está lançado - a partir daí Lugares comuns trata da tentativa de reinvenção de um casal desiludido, no exato momento em que têm somente um ao outro. Sustentado nas interpretações espetaculares de Luppi e Mercedes, Aristarain tem então espaço para desenvolver um desafiador retrato intimista. Os seus diálogos primorosos não apenas fortalecem a ligação dos dois personagens, como iluminam a questão da bancarrota argentina. O professor Fernando é a personificação de uma geração politizada que agora acorda para a realidade. Até a quebradeira, Buenos Aires sempre foi um oásis artificial de europeização dentro de uma nação índia, mestiça, rural, provinciana.

Com o seu filme, Aristarain começa a dissipar essa ilusão - e colocar o cancioneiro popular no lugar do tango na trilha sonora é só o começo da sua comovente redenção.

Fonte: http://www.omelete.com.br/

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Viktor Frankl sobre a Liberdade Humana

"A nossa liberdade é limitada. Quer dizer que nunca estamos completamente livres das circunstâncias, sejam elas de ordem biológica, psicológica, ou sociológica. Mas a liberdade plena está sempre ao nosso alcance, isto é, a liberdade de enfrentar quaisquer condições adversas. O modo como reagimos às condições impostas é uma decisão nossa. Em outras palavras: se não pudermos mudar a situação, ainda resta-nos a liberdade de mudar nossa atitude frente à situação".

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Pequenos Começos

Como uma boa prosa sem rumo com um amigo ou uma relaxante espreguiçada numa rede em tarde de verão; como um vento fresco repentino em pleno sol de meio-dia ou um bom vinho que desperta o paladar para a refeição, assim é a leitura de um bom livro.
A descoberta do prazer da leitura é algo secreto, íntimo, inconfessado e, muitas vezes, solitário. Ao se degustar as palavras, as idéias e as histórias, elas se tornam alimento para a alma.
Quando o Profeta hebreu Ezequiel, naquela visão divina narrada na Bíblia, comeu o rolo (livro), este se tornou na sua boca doce como o mel "...dá de comer ao teu ventre e enche as tuas entranhas deste rolo que eu te dou" . E mais, o próprio ser se transforma num aperfeiçoamento contínuo, pela incorporação de pensamentos, experiências e vivências.

A fome pela leitura é uma expressão, ainda que limitada, da fome pela vida. As palavras são portais que nos levam à dramaticidade da vida, da urgência do viver. Elas nos revelam o real com sua beleza e contradição, como o fogo roubado dos deuses por Prometeu. Como diz Adélia Prado: "Não quero faca nem queijo. Quero é fome". A falta de apetite nos diz que algo está errado e uma anomalia pode estar presente.

Ler é encontro, é saudade, é ruptura, desconfiança, crescimento; é dividir-se, engrandecer-se, humilhar-se. É ter a experiência do assombro, numinoso, êxtase da mente. É uma janela que se abre para os mistérios e a beleza da vida. Mas também pode não ser nada disso. Depende do momento, do estado de espírito ou da sede da alma. O livro não existe por si próprio: precisa encontrar a terra fértil do espírito do homem para compor um significado único, subjetivo, íntimo.

Mas ler ainda não é tudo. Viver em plenitude sim é a nossa maior busca. Porém, ao ler o mundo e pensá-lo, entender a si próprio e a natureza e aprimorar a consciência critica através da literatura e dos bons livros, abre-se uma grande porta para essa plenitude de vida.

Se você não gosta de ler, desconfie desse gosto. Pode ser árduo no início, mas no fim se tornará um benéfico "vício". Um paradoxal "vício" que liberta! Por que estou dizendo tudo isso a você ? "Não tem graça um tesouro achado e não compartilhado.

queremos sempre dividir aquilo que consideramos como bens espirituais". Mas é preciso coragem para começar. Lembre-se de uma idéia contida nas Escrituras, Zacarias 4:10: "Não é bom desprezar os pequenos começos."

Mas, se você já foi picado e "envenenado" pelo prazer da leitura, esse poderá ser apenas um aperitivo.
Quero concluir com Ruben Alves: "Todo texto literário é uma partitura musical. As palavras são as notas, mas o que interessa é o todo, a harmonia. Se aquele que lê é uma artista, se ele domina a técnica, se ele surfa sobre as palavras, se ele está possuído pelo texto – a beleza acontece".
Rhaymer L. Campelo

Humor


“Fasten seat-belt while seated”

(Mantenha os cintos atados enquanto sentado)

O homo sapiens distingui-se dos outros seres do universo pelo sentimento da descoberta, pela curiosidade de conhecer o mundo em que vive e ter consciência de suas sensações e de seus desejos. Portanto, o que deveria ser fundamental no homem é o exercício da faculdade de observar atentamente a realidade circundante, questionar os valores impostos pela sociedade, evitar os estereótipos lingüísticos e ideológicos, raciocinar além da doxa, da opinião comum, pois, como dizia o saudoso Nelson Rodrigues, "Toda unanimidade é burra". Mas infelizmente, o homem costuma renunciar à prática da reflexão, do bom-senso, do equilíbrio, da coerência. Vivemos o dia-a-dia sem nos darmos conta do absurdo existencial. Falamos por automatismos, usando palavras e fases sem sentido, cultivamos hábitos nocivos a nossa saúde, seguimos rituais religiosos com pouca fé e muita hipocrisia, escolhemos políticos que não atendem aos interesses da coletividade, promulgamos leis injustas ou impraticáveis, estabelecemos padrões de comportamento que causam nossa infelicidade, pois não conseguem atingir o equilíbrio entre a necessidade da satisfação dos instintos individuais e as exigências da vida em sociedade. Enfim, o que reina soberana é a estupidez humana! Apenas como exemplo de nossa incúria no exercício da razão, gostaria de tornar pública minha indignação toda vez que, ao tomar assento num avião a jato, em vôos internacionais ou domésticos, encontro atrás do assento que está a minha frente:

"Fasten seat-belt while seated"

Tal enunciação, além de redundante, pois já existe o sinal luminoso e o aviso oral da tripulação, é ridículo (queria ver como é possível manter os cintos atados estando de pé!) e, ainda por cima, falso: quem viaja de avião sabe que deve atar os cintos na decolagem, no pouso e nas turbulências, mas não no tempo todo que se está sentado. Ora, milhares de pessoas, do mais alto nível social e cultural, passam longas horas com uma escrita tão idiota na frente de seus olhos, sem se dar conta da cretinice e sem reclamar junto à companhia de aviação! Isso porque não costumamos refletir sobre o que se passa a nosso redor, sendo guiados por puros automatismos. Infelizmente, a ciência ganha em conhecimento mais rapidamente do que a sociedade em sabedoria. Mas, como disse o sábio chinês Confúcio, "aprender sem pensar é simplesmente inútil".

Portanto, adquirir um conhecimento apenas técnico, sem refletir sobre a utilidade de sua aplicação ou sobre seu valor estético ou formativo, é um desperdício da inteligência humana. O hábito da reflexão deveria ser o denominador comum do cientista, do artista, do pedagogo, de qualquer homem, enfim, que queira fazer o uso correto da razão. É triste constatar que estamos vivendo a civilização do conhecimento e não da sabedoria. Isso explica por que, apesar dos formidáveis avanços tecnológicos, ainda persistem inúmeros conflitos, de ordem política e religiosa, individual e social. Deveríamos pôr em prática o profundo achado do famoso historiador inglês Arnold Toynbee:


"a sabedoria é o conhecimento temperado pelo juízo".

Metodologia do Trabalho Intelectual – Salvatore D'Onofrio - Atlas