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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
domingo, 30 de janeiro de 2011
Um outro olhar 'sob' as cidades
sábado, 29 de janeiro de 2011
O Retorno
Existe esse mito de que crítico de cinema só gosta de coisa chata. Não é bem assim. Qualquer pessoa que vai cinco vezes por semana no cinema, cinéfilo ou não, acaba desenvolvendo um certo senso de julgamento. Clichês se tornam mais e mais irritantes. Ouvir sempre as mesmas piadas, ver repetidos a esmo os mesmos efeitos digitais, conferir sempre os mesmos finais felizes, uma hora cansa. E tudo aquilo que foge dessas facilidades, que oferece um razoável nível de elaboração, não demora a ser taxado de "cansativo", "difícil".Basta apenas ao espectador saber respeitar o ritmo do filme. Essa é outra peculiaridade que todo crítico deve conservar: se livrar da mastigação apressada da televisão e apreciar o tempo do cinema. A velocidade é outra. O olhar deve ser outro também. Ter tempo para pensar, para se embrenhar em uma obra como O Retorno, faz com que ela fique ruminando na cabeça muito além do fim da sessão.
Marcelo Hessel
Fonte: www.omelete.com.br/cinema
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
MENTES SIMPLES E COMPLEXAS
A mente complexa é curva, elíptica.
A mente simples acredita que somando dois com dois vai chegar ao quatro.
A mente complexa sabe que somando dois com três pode chegar a vários resultados, até mesmo, eventualmente, ao quatro.
A mente simples afirma que a linha reta é a menor distância entre dois pontos.
A mente complexa sabe que o universo é curvo e que, portanto, a curva pode também ser a menor distância entre dois pontos.
A mente simples acredita que o que não é branco é preto.
A mente complexa sabe que existe um espectro de cores e é com essa palheta que se chega ao arco-íris.
A mente simples diz furiosa: olho por olho, dente por dente.
A mente complexa pondera como Gandhi, e sabe que dizendo olho por olho acabaremos todos cegos e desdentados.
Lembram-se de quando dividíamos o mundo em esquerda e direita?
Hitler não era de direita nem Stalin de esquerda.
Hitler e Stalin eram mentes perversamente simples.
A mente simples não vê matizes.
É o bem contra o mal, o certo contra o errado, o Ocidente versus Oriente.
O terrorista tem uma mente terrivelmente simples.
O pacifista, até o pacifista, pode ter uma mente desarmadamente simples.
A arte não é uma coisa simples, embora alguns a simplifiquem em receitas, objetos de consumo e marketing.
Brunelleschi e Alberti, que descobriram a perspectiva no Renascimento, não tinham uma mente simples. Goya não tinha uma mente simples. Clarice não tinha uma mente simples. Nem Machado, nem Guimarães Rosa. Bach era simplesmente complexo.
A mente complexa é a que está sempre aberta para novas dimensões. Newton percebeu dimensões novas no universo. Einstein agregou a quarta dimensão. E agora Stephen Hawking nos anuncia que há pelo menos 21 dimensões ou realidades diferentes.
Olhemos a biologia: o ovo não é quadrado. O coração não é retangular. O DNA são espirais que se procuram a si mesmas num interminável balé de curvas.
Olhemos as galáxias. E os ventos. E os vulcões. E as tempestades. Não são simples, não marcham em linha reta.
O amor, ah! o amor, não é, nunca foi uma coisa simples.
Affonso Romano de Sant'Anna
Cenário: uma banca de jornal no centro de uma cidade.Personagens: um jornalista que tenta comprar jornais e revistas e um cidadão de meia idade que lê as manchetes dos jornais expostos na banca.
Cidadão — Eu acho que conheço o senhor... O senhor é jornalista, não é mesmo?
Jornalista — É, eu sou...
Cidadão — Já vi sua fotografia no jornal...
Jornalista — É, ela já saiu algumas vezes...
Cidadão — Posso lhe perguntar uma coisa?
Jornalista — Veja, eu estou meio apressado... Mas pode perguntar, sim.
Cidadão — Por que os jornais se parecem tanto?
Jornalista — Como?
Cidadão — Por que os jornais são tão parecidos? Por que tratam quase sempre dos mesmos assuntos?
Jornalista — Porque notícias importantes interessam a todos eles. E são publicadas por todos.
Cidadão — E quem decide que uma notícia é importante?
Jornalista — Ora, nós sabemos quando estamos diante de uma notícia importante.
Cidadão — Então são os jornalistas que decidem quando uma notícia é importante?
Jornalista — Bem, digamos que seja...
Cidadão — E se os jornais se parecem tanto é porque os jornalistas pensam da mesma maneira
Jornalista — Mais ou menos...
Cidadão — Quem compra jornal pensa como a maioria dos jornalistas?
Jornalista — Acho que não. Há pesquisas nos Estados Unidos que provam que não. Mas se compra é porque reconhece que os jornalistas sabem em geral escolher bem o que publicam.
Cidadão — Então os jornais vendem cada vez mais?
Jornalista — Não, a maioria dos jornais no mundo vende cada vez menos. (O cidadão olha o jornalista com ar de espanto e se cala por alguns segundos. Quando vê que o jornalista faz menção de ir embora, retoma as perguntas.)
Cidadão — Por que os jornais têm tantas páginas?
Jornalista — Porque têm muitas notícias e anúncios.
Cidadão — E as pessoas têm tempo para ler tanta coisa?
Jornalista — Não. Cada vez elas têm menos tempo.
Cidadão — E tem aumentado o volume de anúncios nos jornais?
Jornalista — Pelo contrário.
Cidadão — Então por que os jornais não têm menos páginas?
Jornalista -- Não sei... Mas o senhor está começando a me irritar...(O cidadão parece claramente confuso. O jornalista se empenha em fazer de conta de que está apenas irritado com tantas perguntas.)
Cidadão — Jornal existe para quê?
Jornalista — Para informar as pessoas. Também para instruí-las e diverti-las.
Cidadão — Então tudo o que interessa às pessoas tem no jornal?
Jornalista — Quase tudo. Ou grande parte.
Cidadão — Os jornais publicam muitas notícias sobre política e economia, não é?
Jornalista — Publicam, sim.
Cidadão — Quer dizer que os leitores se interessam muito por elas?
Jornalista — Não, elas despertam cada vez menos interesse. Pelo menos da forma como são escritas ou apresentadas.
Cidadão — E que tipo de notícias desperta mais interesse nos leitores?
Jornalista — Notícias sobre temas que afetam mais diretamente a vida deles. Notícias, por exemplo, sobre saúde, educação, sexo,ciência, políticas públicas...
Cidadão — Mas os jornais não têm muito delas, não é?
Jornalista — É. Não têm...(A essa altura, o jornalista e o cidadão estão rodeados por meia dúzia de pessoas que passavam por ali e se interessaram pela conversa.)
Cidadão — Os jovens lêem jornais?
Jornalista — Lêem pouco. E cada vez menos.
Cidadão — Mas o que os jornais fazem para atraí-los?
Jornalista — Não fazem muita coisa.
Cidadão — Se não atraírem leitores jovens, no futuro os jornais não terão mais leitores, estou certo?
Jornalista — Está, sim. É mais ou menos isso.
Cidadão — Então a idéia dos jornalistas é acabar com os jornais...
Jornalista — O senhor me desculpe, mas tenho que ir embora.(O jornalista sai de cena. O cidadão e as demais pessoas ficam por ali comentando baixinho o que ouviram. A cortina baixa.)
*Livro "A Arte de Fazer um Jornal Diário", da Editora Contexto, de Ricardo Noblat
domingo, 23 de janeiro de 2011
domingo, 16 de janeiro de 2011
Flores ou miséria?
sábado, 15 de janeiro de 2011
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
O Corpo
"Somos escravizados por aquilo que criamos"
Mas vamos ao nosso objetivo, a frase. Ela não citou o autor, ou talvês seja apenas a síntese do pensamento de algum escritor ou de uma obra. No entanto me chamou atenção. Ainda mais que o entrevistado da ocasião era o sociólogo Roberto da Matta, intelectual que possui uma inspiradora história de vida, homem de esquerda lúcido, sem utopias, uns dos pensadores mais vívidos de nossa época. Acho que ele estava dizendo algo sobre o ciclo da vida, seus revezes, a sua constante reivenção pelos homens e suas idéias, ou, numa visão marxista, a 'vida' condicionando os homens a reelaborar suas idéias por meio das condições materiais.
O que me fez pensar foi mesmo a possível idéia subjacente á frase. Me fez rever tudo o que sei ou não sei sobre a vida, sobre mim. Em tudo o que estamos envolvidos, irremediavelmente, num drama Kafkiano, que se repete sem cessar, que também se liga ao nome do programa 'Roda Viva" e à música extasiante de Chico Buarque. Estamos envolvidos com quais tipos de condicionamentos? Que tipo de civilização criamos, que consegue erguer do nada uma Dubai, mas não tem recursos (ou vontade) de afastar o nada, a miséria, o sofrimento dos milhões de famintos do planeta?
Uma espécie de compensação psicológica apoderou-se de minha mente ao pensar que, mesmo os mais abastados da terra são escravos, condicionados por alguma coisa, que a liberdade é uma conquista diária, um reiventar da vida, uma superação constante. Como disse Da matta em certa altura da entrevista: "Nossa luta e retomada dos projetos acontece todo dia logo ao acordar". É a unica forma que temos para conquistar a liberdade e viver.
Ainda sim, continuo pensando. Eu, sempre na tentativa de enchergar o real de forma mais clara, por meio das idéias, me satisfaço muitas vezes em ver 'o que é" e deixar a superação, a transformação das coisas, para os homens de ação. Será mesmo que criamos estruturas que nos escravizam de alguma forma, mas ao mesmo tempo foram a concretização de nossa luta pela liberdade e pela vida?
- A Civilização
- A linguagem
- A Cultura
- O Trabalho
- A Religião
- A ciência
- A tecnologia
- Os paradigmas
- As eras
- O mundo
Deixo a pergunta no ar...
Rhaymer L.C
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Acabo de ministrar uma oficina sobre o papel do leitor em nossa sociedade. Os alunos eram jovens adolescentes de classe média e baixa (Escola Pública), na qual muitos de nós imputamos o estigma de maus leitores. Num determinado momento citei essa frase retirada do romance "Que enchente me carrega" do escritor Menalton Braff. A frase era do personagem Godofredo, desconfiado do ofício do seu amigo Firmino, que era a de confecionar sapatos. Godofredo massacrava seu intelocutor denegrindo o valor de sua 'arte', dizendo que ela não passava de mero artesanato. Da oficina de sapatos do Firmino à oficina de leitura em questão podemos tecer alguns paralelos:
O prazer da leitura é uma aquisição a longo prazo. Não é algo dado, acabado e de fácil apego. É uma amor sofrido e que vai se solidificando a cada experiência, e pode ser que nunca aconteça, pelos motivos que estamos 'carecas' de saber, a má formação e falta de habilidade dos professores que optam por impor um método de ensino arcaico, chato; os traumas e a birra dos alunos pelo texto; a competição com outras mídias muito mais atraentes e flexíveis, etc .O prazer da leitura é uma construção que, no final, resulta no prazer da realização, do entendimento e do clareamento da visão de mundo, além do encontro consigo mesmo. Mas o prazer pode ser apenas pelo contato com o texto, a palavra escrita, a história e os personagens. Como confeccionar sapatos, aqueles que trilham os caminhos da leitura sabem que possuem sua própria oficina. Nela construimos nosso mundo, o ser, elaboramos a vida e suportamos sua contradição com maior liberdade. Firmino diria que não tinha oficina, mas sim seu 'atelier", porque insistia que seu trabalho era pura arte, apesar dos sapatos não terem um fim contemplativo. Será? Acho que as mulheres vão chiar comigo e responder que sim! Mas eu não estou defendendo nem uma posição nem outra. Só estou provocando !
Então, uma oficina é menos nobre que um atelier? Durante a aula acabei mencionando a classificação baixa, média e alta literatura. A estética estabelece padrões para 'medir' o que é e o que não é boa literatura ou arte? Sapatos são só objetos de consumo, não são dignos de contemplação estética? Godofredo diria, irrevogalvemente, que não. Se eu leio Zíbia Gaspareto, Augusto Cury ou congêneres, isso significa, segundo essa tese, que estou imerso num texto superficial e esteticamente pobre, feito com muito trabalho sim, numa oficina de idéias descartáveis, nunca num atelier de arte, dizem. Ao contrário, segundo a estética, Kafka e Homero são citados como os supras sumos da estética literária, por motivos outros.
Pode até ser!! Mas uma coisa eu defendo aqui: disse aos meus alunos que só o mero contato com a palavra escrita já é um avanço e tanto. Mesmo a chamada baixa literatura pode oferecer chaves de leitura viáveis para textos mais seletos, nobres, outros textos. Pode despertar a curiosidade do leitor iniciante. Por que não trabalhar Hary Porter com os adolescentes e aos poucos ir migrando para textos mais complexos? Não apaguemos a pavio que fumega! Muitos escritores considerados obrigatórios hoje já escreveram textos nem tão nobres assim, como Érico Veríssimo, por exemplo.
Rhaymer L. Campelo
sábado, 1 de janeiro de 2011
Rogério Skylab
godardcity.blogspot.com
UM HOMEM TRANQUILO
Escuta o murmúrio
do homem tranquilo.
Por um triz não se tornou assassino
É sóbrio, cordato.
Teria trucidado a mãe.
Mas tem olhos serenos.
Um homem do bem.
SKYLAB/DEZEMBRO/2010
Rhaymer L. Campelo


