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sábado, 19 de março de 2011

a arte de perder

"A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério. "


Elizabeth Bishop

sábado, 26 de fevereiro de 2011

" O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente"

Fernando Pessoa - Autopsicografia - Cancioneiro

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Cinema arte

Lugares comuns

Marcelo Hessel











Trama argentina fala do amor na meia idade e valoriza sentimentos em meio à ruína econômica do país. Pensou em O Filho da noiva (El Hijo de la novia, de Juan José Campanella, 2001)? Pois o cinema portenho já mostrou que pode muito mais.


O filme em questão, dirigido por Adolfo Aristarain, se chama Lugares comuns (Lugares comunes, 2002), e a sua munição é ainda maior. Comove secamente, sem partir para o sentimentalismo, convence como crônica e se aprofunda ainda mais nas questões sociais do que o campeão de bilheterias de Campanella.

Pilar do cinema argentino desde a sua estréia como diretor em 1978, Aristarain, sessenta anos completos em 2003, faz do seu décimo filme um manifesto. Baseado no romance El Renacimiento do seu primo Lorenzo F. Aristarain, dá o seu parecer sobre a falência nacional com o habitual sarcasmo e o inconformismo de um pensador de esquerda. Para tanto, faz do protagonista da trama, o professor de Letras Fernando Robles (Federico Luppi, colaborador fiel do diretor), um legítimo alter-ego.

Na história, o professor Fernando acaba de ser aposentado na faculdade por limite de idade. Para o seu azar, e da sua mulher Liliana (Mercedes Sampietro, esposa de Luppi na vida real), a crise lhe tira a expectativa de uma remuneração razoável e de um sustento tranquilo.

Para espairecer, o casal viaja a Madri em férias e aproveita para visitar o filho Pedro (Carlos Santamaría), que adotou a Espanha como casa.

Fernando e Liliana já moraram em Madri, durante o exílio em pleno regime militar. Agora, Fernando não aceita a postura do filho. Critica-o por ter abandonado a Argentina democrática de livre vontade, por ter escolhido uma carreira bem paga em detrimento de verdadeiras conquistas.

Pai e filho se desentendem. De volta a Buenos Aires, Fernando e Liliana percebem que a situação pede sacrifícios. Então, vendem o vasto apartamento no rico bairro de Palermo para comprar um sítio barato e plantar flores em Córdoba. Mal comparando, seria como um intelectual paulistano que decide se mudar para colher soja em Cuiabá.

O conflito está lançado - a partir daí Lugares comuns trata da tentativa de reinvenção de um casal desiludido, no exato momento em que têm somente um ao outro. Sustentado nas interpretações espetaculares de Luppi e Mercedes, Aristarain tem então espaço para desenvolver um desafiador retrato intimista. Os seus diálogos primorosos não apenas fortalecem a ligação dos dois personagens, como iluminam a questão da bancarrota argentina. O professor Fernando é a personificação de uma geração politizada que agora acorda para a realidade. Até a quebradeira, Buenos Aires sempre foi um oásis artificial de europeização dentro de uma nação índia, mestiça, rural, provinciana.

Com o seu filme, Aristarain começa a dissipar essa ilusão - e colocar o cancioneiro popular no lugar do tango na trilha sonora é só o começo da sua comovente redenção.

Fonte: http://www.omelete.com.br/

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Viktor Frankl sobre a Liberdade Humana

"A nossa liberdade é limitada. Quer dizer que nunca estamos completamente livres das circunstâncias, sejam elas de ordem biológica, psicológica, ou sociológica. Mas a liberdade plena está sempre ao nosso alcance, isto é, a liberdade de enfrentar quaisquer condições adversas. O modo como reagimos às condições impostas é uma decisão nossa. Em outras palavras: se não pudermos mudar a situação, ainda resta-nos a liberdade de mudar nossa atitude frente à situação".

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Pequenos Começos

Como uma boa prosa sem rumo com um amigo ou uma relaxante espreguiçada numa rede em tarde de verão; como um vento fresco repentino em pleno sol de meio-dia ou um bom vinho que desperta o paladar para a refeição, assim é a leitura de um bom livro.
A descoberta do prazer da leitura é algo secreto, íntimo, inconfessado e, muitas vezes, solitário. Ao se degustar as palavras, as idéias e as histórias, elas se tornam alimento para a alma.
Quando o Profeta hebreu Ezequiel, naquela visão divina narrada na Bíblia, comeu o rolo (livro), este se tornou na sua boca doce como o mel "...dá de comer ao teu ventre e enche as tuas entranhas deste rolo que eu te dou" . E mais, o próprio ser se transforma num aperfeiçoamento contínuo, pela incorporação de pensamentos, experiências e vivências.

A fome pela leitura é uma expressão, ainda que limitada, da fome pela vida. As palavras são portais que nos levam à dramaticidade da vida, da urgência do viver. Elas nos revelam o real com sua beleza e contradição, como o fogo roubado dos deuses por Prometeu. Como diz Adélia Prado: "Não quero faca nem queijo. Quero é fome". A falta de apetite nos diz que algo está errado e uma anomalia pode estar presente.

Ler é encontro, é saudade, é ruptura, desconfiança, crescimento; é dividir-se, engrandecer-se, humilhar-se. É ter a experiência do assombro, numinoso, êxtase da mente. É uma janela que se abre para os mistérios e a beleza da vida. Mas também pode não ser nada disso. Depende do momento, do estado de espírito ou da sede da alma. O livro não existe por si próprio: precisa encontrar a terra fértil do espírito do homem para compor um significado único, subjetivo, íntimo.

Mas ler ainda não é tudo. Viver em plenitude sim é a nossa maior busca. Porém, ao ler o mundo e pensá-lo, entender a si próprio e a natureza e aprimorar a consciência critica através da literatura e dos bons livros, abre-se uma grande porta para essa plenitude de vida.

Se você não gosta de ler, desconfie desse gosto. Pode ser árduo no início, mas no fim se tornará um benéfico "vício". Um paradoxal "vício" que liberta! Por que estou dizendo tudo isso a você ? "Não tem graça um tesouro achado e não compartilhado.

queremos sempre dividir aquilo que consideramos como bens espirituais". Mas é preciso coragem para começar. Lembre-se de uma idéia contida nas Escrituras, Zacarias 4:10: "Não é bom desprezar os pequenos começos."

Mas, se você já foi picado e "envenenado" pelo prazer da leitura, esse poderá ser apenas um aperitivo.
Quero concluir com Ruben Alves: "Todo texto literário é uma partitura musical. As palavras são as notas, mas o que interessa é o todo, a harmonia. Se aquele que lê é uma artista, se ele domina a técnica, se ele surfa sobre as palavras, se ele está possuído pelo texto – a beleza acontece".
Rhaymer L. Campelo

Humor


“Fasten seat-belt while seated”

(Mantenha os cintos atados enquanto sentado)

O homo sapiens distingui-se dos outros seres do universo pelo sentimento da descoberta, pela curiosidade de conhecer o mundo em que vive e ter consciência de suas sensações e de seus desejos. Portanto, o que deveria ser fundamental no homem é o exercício da faculdade de observar atentamente a realidade circundante, questionar os valores impostos pela sociedade, evitar os estereótipos lingüísticos e ideológicos, raciocinar além da doxa, da opinião comum, pois, como dizia o saudoso Nelson Rodrigues, "Toda unanimidade é burra". Mas infelizmente, o homem costuma renunciar à prática da reflexão, do bom-senso, do equilíbrio, da coerência. Vivemos o dia-a-dia sem nos darmos conta do absurdo existencial. Falamos por automatismos, usando palavras e fases sem sentido, cultivamos hábitos nocivos a nossa saúde, seguimos rituais religiosos com pouca fé e muita hipocrisia, escolhemos políticos que não atendem aos interesses da coletividade, promulgamos leis injustas ou impraticáveis, estabelecemos padrões de comportamento que causam nossa infelicidade, pois não conseguem atingir o equilíbrio entre a necessidade da satisfação dos instintos individuais e as exigências da vida em sociedade. Enfim, o que reina soberana é a estupidez humana! Apenas como exemplo de nossa incúria no exercício da razão, gostaria de tornar pública minha indignação toda vez que, ao tomar assento num avião a jato, em vôos internacionais ou domésticos, encontro atrás do assento que está a minha frente:

"Fasten seat-belt while seated"

Tal enunciação, além de redundante, pois já existe o sinal luminoso e o aviso oral da tripulação, é ridículo (queria ver como é possível manter os cintos atados estando de pé!) e, ainda por cima, falso: quem viaja de avião sabe que deve atar os cintos na decolagem, no pouso e nas turbulências, mas não no tempo todo que se está sentado. Ora, milhares de pessoas, do mais alto nível social e cultural, passam longas horas com uma escrita tão idiota na frente de seus olhos, sem se dar conta da cretinice e sem reclamar junto à companhia de aviação! Isso porque não costumamos refletir sobre o que se passa a nosso redor, sendo guiados por puros automatismos. Infelizmente, a ciência ganha em conhecimento mais rapidamente do que a sociedade em sabedoria. Mas, como disse o sábio chinês Confúcio, "aprender sem pensar é simplesmente inútil".

Portanto, adquirir um conhecimento apenas técnico, sem refletir sobre a utilidade de sua aplicação ou sobre seu valor estético ou formativo, é um desperdício da inteligência humana. O hábito da reflexão deveria ser o denominador comum do cientista, do artista, do pedagogo, de qualquer homem, enfim, que queira fazer o uso correto da razão. É triste constatar que estamos vivendo a civilização do conhecimento e não da sabedoria. Isso explica por que, apesar dos formidáveis avanços tecnológicos, ainda persistem inúmeros conflitos, de ordem política e religiosa, individual e social. Deveríamos pôr em prática o profundo achado do famoso historiador inglês Arnold Toynbee:


"a sabedoria é o conhecimento temperado pelo juízo".

Metodologia do Trabalho Intelectual – Salvatore D'Onofrio - Atlas

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O Mercado e o Estado são monstros frios, de que a vida tem de escapar todo o tempo (por meio da arte, grifo meu).
Joel Rufino dos Santos - Amigos de Pape
Caros Amigos, nº 166

domingo, 30 de janeiro de 2011

Um outro olhar 'sob' as cidades

O historiador urbano Steven Duncan explora as cidades de uma maneira diferente: pelo lado de baixo, os subterrâneos e os lugares que as pessoas dotadas com um mínimo de juízo jamais ousariam visitar. Um universo cinza e lúgubre, mas ao mesmo tempo curioso, porque revela as bases e as conexões que sustentam a vida na superfície da cidade, são mostradas por meio de fotografias e vídeos no site http://www.undercity.org/.
Steven, como um geólogo que procura pistas sobre a história do relevo e das rochas, tenta retirar as camadas invísiveis do processo de urbanização das grandes cidades, mas também desvenda os lugares inacessíveis em busca de um outro ângulo para suas fotografias. O resultado é um conjunto estético surpreendente onde, vez ou outra, surgem personagens que narram histórias curiosas das cidades que não os acolheram pelo lado de 'cima'.

Aproveitando a deixa, este e outros projetos de vanguarda em termos de vídeo você poderá apreciar no site: http://www.vimeo.com/. Como o projeto pessoal de Salomon "Silent Transitions", inspirados em dois versículos da Bíblia -2 Samuel 22:20 e Salmos 46:10, respectivamente:
- Trouxe-me para um lugar espaçoso; livrou-me, porque ele se agradou de mim.
- Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus; sou exaltado entre as nações, sou exaltado na terra.
Rhaymer L.C

sábado, 29 de janeiro de 2011

O Retorno

Existe esse mito de que crítico de cinema só gosta de coisa chata. Não é bem assim. Qualquer pessoa que vai cinco vezes por semana no cinema, cinéfilo ou não, acaba desenvolvendo um certo senso de julgamento. Clichês se tornam mais e mais irritantes. Ouvir sempre as mesmas piadas, ver repetidos a esmo os mesmos efeitos digitais, conferir sempre os mesmos finais felizes, uma hora cansa. E tudo aquilo que foge dessas facilidades, que oferece um razoável nível de elaboração, não demora a ser taxado de "cansativo", "difícil".

Esse desabafo serve, entre outras coisas, para situar o leitor diante do filme russo O Retorno (Vozvrashcheniye, 2003), do estreante Andrei Zvyagintsey. Temos aqui tudo de bom e do melhor para quem não aguenta mais as fórmulas entregues de bandeja ao grande público: linguagem televisiva, diálogos que não levam a nada, personagens rasos e idéias recicladas. O atual campeão do Festival de Veneza - com cinco prêmios, inclusive Melhor Filme - atende os espectadores que sentem falta de densos dramas humanos, que gostam de ser envolvidos, incomodados, chamados a refletir.

Na trama, os irmãos Andrey (Vladimir Garin) e Ivan (Ivan Dobronravov) vivem os obstáculos da adolescência: a necessidade de ser aceito, o desafio de largar a saia da mãe. Mas o retorno do pai (Konstantin Lavronenko), depois de doze anos, inflama essa rotina. Andrey e Ivan não se lembram dele. Instala-se o constrangimento. Para piorar, o pai não explica o tempo de afastamento - apenas diz aos meninos que sairão de férias, para pescar, numa viagem entre homens, para se conhecerem melhor.
Road-movie de formação
Temos aqui a mescla de dois subgêneros narrativos: o road-movie e o romance de formação. O primeiro trata de longas viagens que revelam mais da mente dos viajantes do que da própria paisagem. O segundo diz respeito às grandes histórias de construção do caráter de quem abandona a ingenuidade pueril para perceber a própria individualidade. O falado Diários de motocicleta (de Walter Salles, 2004), por exemplo, é o road-movie de formação de Ernesto Guevara. Aliás, a comparação é providencial: o que Diários tem de didatismo, de simplificação, O Retorno tem de complexidade.

A relação que se estabelece entre o pai e os filhos é um verdadeiro ensaio pedagógico. A resposta de Andrey à aproximação será diferente da de Ivan, pelo simples fato deste ser o caçula e aquele o mais velho. Pequenas coisas como o jeito que o pai olha para uma mulher na rua, o jeito como pede comida no restaurante e o jeito como diferencia os dois filhos se tornam motivo para novas desconfianças.
E o pai impõe respeito. Dessa forma, o conhecimento não se dá por trocas recíprocas, mas por atritos, por concessões. Andrey apanha por desobedecê-lo, mas em seguida é recompensado com o direito de dirigir o carro. Contrário a esse tipo de "educação", Ivan resiste. Assim, o caçula, que antes era ridicularizado pelos outros garotos, sofre a duras penas a formação da sua maturidade. E disso o filme tira a sua força.

O tempo de pensar

Zvyagintsey trabalha essa metáfora freudiana de "matar o pai para conquistar independência" com segurança, com autoridade. Mas não se restringe a ela. O fato de O Retorno ser um filme da Rússia é emblemático. Dá para levantar, sem medo, a seguinte interpretação: como Ivan e Andrey, os russos criados nos anos 90 não reconhecem no antigo Comunismo um laço de sangue. E a severidade do pai, personificação da ex-União Soviética totalitarista, já não atende mais aos anseios de uma geração que se vê abandonada, necessitada de uma boa política renovadora, humanista e solidária.
O filme dá espaço a esse tipo de reflexão pois não atropela o entendimento do espectador, não lhe corta o direito de tirar conclusões próprias. O seu desenvolvimento é lento e introspectivo, sim, mas nunca maçante. Os planos não se estendem em excesso. Pelo contrário, cada fotograma é preenchido por novas informações, sem nunca parecerem vazios ou redundantes.

Basta apenas ao espectador saber respeitar o ritmo do filme. Essa é outra peculiaridade que todo crítico deve conservar: se livrar da mastigação apressada da televisão e apreciar o tempo do cinema. A velocidade é outra. O olhar deve ser outro também. Ter tempo para pensar, para se embrenhar em uma obra como O Retorno, faz com que ela fique ruminando na cabeça muito além do fim da sessão.

Marcelo Hessel
Fonte: www.omelete.com.br/cinema

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

MENTES SIMPLES E COMPLEXAS

A mente simples é retilínea, plana.
A mente complexa é curva, elíptica.
A mente simples acredita que somando dois com dois vai chegar ao quatro.
A mente complexa sabe que somando dois com três pode chegar a vários resultados, até mesmo, eventualmente, ao quatro.
A mente simples afirma que a linha reta é a menor distância entre dois pontos.
A mente complexa sabe que o universo é curvo e que, portanto, a curva pode também ser a menor distância entre dois pontos.
A mente simples acredita que o que não é branco é preto.
A mente complexa sabe que existe um espectro de cores e é com essa palheta que se chega ao arco-íris.
A mente simples diz furiosa: olho por olho, dente por dente.
A mente complexa pondera como Gandhi, e sabe que dizendo olho por olho acabaremos todos cegos e desdentados.
Lembram-se de quando dividíamos o mundo em esquerda e direita?
Hitler não era de direita nem Stalin de esquerda.
Hitler e Stalin eram mentes perversamente simples.
A mente simples não vê matizes.
É o bem contra o mal, o certo contra o errado, o Ocidente versus Oriente.
O terrorista tem uma mente terrivelmente simples.
O pacifista, até o pacifista, pode ter uma mente desarmadamente simples.
A arte não é uma coisa simples, embora alguns a simplifiquem em receitas, objetos de consumo e marketing.
Brunelleschi e Alberti, que descobriram a perspectiva no Renascimento, não tinham uma mente simples. Goya não tinha uma mente simples. Clarice não tinha uma mente simples. Nem Machado, nem Guimarães Rosa. Bach era simplesmente complexo.
A mente complexa é a que está sempre aberta para novas dimensões. Newton percebeu dimensões novas no universo. Einstein agregou a quarta dimensão. E agora Stephen Hawking nos anuncia que há pelo menos 21 dimensões ou realidades diferentes.
Olhemos a biologia: o ovo não é quadrado. O coração não é retangular. O DNA são espirais que se procuram a si mesmas num interminável balé de curvas.
Olhemos as galáxias. E os ventos. E os vulcões. E as tempestades. Não são simples, não marcham em linha reta.
O amor, ah! o amor, não é, nunca foi uma coisa simples.
Affonso Romano de Sant'Anna
TRAGÉDIA (OU COMÉDIA, SE PREFERIREM)
EM UM ÚNICO ATO *

Cenário: uma banca de jornal no centro de uma cidade.

Personagens: um jornalista que tenta comprar jornais e revistas e um cidadão de meia idade que lê as manchetes dos jornais expostos na banca.

Cidadão — Eu acho que conheço o senhor... O senhor é jornalista, não é mesmo?

Jornalista — É, eu sou...

Cidadão — Já vi sua fotografia no jornal...

Jornalista — É, ela já saiu algumas vezes...

Cidadão — Posso lhe perguntar uma coisa?

Jornalista — Veja, eu estou meio apressado... Mas pode perguntar, sim.

Cidadão — Por que os jornais se parecem tanto?

Jornalista — Como?

Cidadão — Por que os jornais são tão parecidos? Por que tratam quase sempre dos mesmos assuntos?

Jornalista — Porque notícias importantes interessam a todos eles. E são publicadas por todos.

Cidadão — E quem decide que uma notícia é importante?

Jornalista — Ora, nós sabemos quando estamos diante de uma notícia importante.

Cidadão — Então são os jornalistas que decidem quando uma notícia é importante?

Jornalista — Bem, digamos que seja...

Cidadão — E se os jornais se parecem tanto é porque os jornalistas pensam da mesma maneira

Jornalista — Mais ou menos...

Cidadão — Quem compra jornal pensa como a maioria dos jornalistas?

Jornalista — Acho que não. Há pesquisas nos Estados Unidos que provam que não. Mas se compra é porque reconhece que os jornalistas sabem em geral escolher bem o que publicam.

Cidadão — Então os jornais vendem cada vez mais?

Jornalista — Não, a maioria dos jornais no mundo vende cada vez menos. (O cidadão olha o jornalista com ar de espanto e se cala por alguns segundos. Quando vê que o jornalista faz menção de ir embora, retoma as perguntas.)

Cidadão — Por que os jornais têm tantas páginas?

Jornalista — Porque têm muitas notícias e anúncios.

Cidadão — E as pessoas têm tempo para ler tanta coisa?

Jornalista — Não. Cada vez elas têm menos tempo.

Cidadão — E tem aumentado o volume de anúncios nos jornais?

Jornalista — Pelo contrário.

Cidadão — Então por que os jornais não têm menos páginas?

Jornalista -- Não sei... Mas o senhor está começando a me irritar...(O cidadão parece claramente confuso. O jornalista se empenha em fazer de conta de que está apenas irritado com tantas perguntas.)

Cidadão — Jornal existe para quê?

Jornalista — Para informar as pessoas. Também para instruí-las e diverti-las.

Cidadão — Então tudo o que interessa às pessoas tem no jornal?

Jornalista — Quase tudo. Ou grande parte.

Cidadão — Os jornais publicam muitas notícias sobre política e economia, não é?

Jornalista — Publicam, sim.

Cidadão — Quer dizer que os leitores se interessam muito por elas?

Jornalista — Não, elas despertam cada vez menos interesse. Pelo menos da forma como são escritas ou apresentadas.

Cidadão — E que tipo de notícias desperta mais interesse nos leitores?

Jornalista — Notícias sobre temas que afetam mais diretamente a vida deles. Notícias, por exemplo, sobre saúde, educação, sexo,ciência, políticas públicas...

Cidadão — Mas os jornais não têm muito delas, não é?

Jornalista — É. Não têm...(A essa altura, o jornalista e o cidadão estão rodeados por meia dúzia de pessoas que passavam por ali e se interessaram pela conversa.)

Cidadão — Os jovens lêem jornais?

Jornalista — Lêem pouco. E cada vez menos.

Cidadão — Mas o que os jornais fazem para atraí-los?

Jornalista — Não fazem muita coisa.

Cidadão — Se não atraírem leitores jovens, no futuro os jornais não terão mais leitores, estou certo?

Jornalista — Está, sim. É mais ou menos isso.

Cidadão — Então a idéia dos jornalistas é acabar com os jornais...

Jornalista — O senhor me desculpe, mas tenho que ir embora.(O jornalista sai de cena. O cidadão e as demais pessoas ficam por ali comentando baixinho o que ouviram. A cortina baixa.)

*Livro "A Arte de Fazer um Jornal Diário", da Editora Contexto, de Ricardo Noblat

domingo, 23 de janeiro de 2011

Fronteiras do Pensamento
O "Fim da história" segundo Edgar Morin: Uma breve apreciação histórica dos ultimos 40 anos da civilização ocidental (1968 a 2008). Morin defende a idéia da manifestação de variantes econômicas, sociológicas e culturais por meio das possibilidades criativas latentes no gênero humano, que podem levar a civilização a uma transcendência histórica ou à destruição em larga escala.
Edgar Morin é um dos maiores pensadores dialéticos da atualidade, tendo escrito obras diversas, principalmente no campo da Teoria da Complexidade e Sistemas Complexos. Sua obra de maior fôlego é a coleção O Método, onde ele espôe com profundidade os novos paradigmas da Complexidade do Real e desenvolve seu método de investigação científica. A mecânica quântica trouxe novas descobertas do 'funcionamento' dos fenômenos subatômicos, gerando, a partir daí, a formulação de um método inovador de pensamento. Hoje em dia, de forma séria ou não, as novas metodologias de abordagem do Real baseadas na Complexidade são aplicadas na sociológica, psicologia, medicina, engenharia, administração e até em livros de Auto-ajuda.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Flores ou miséria?

As flores tem cheiro de morte, como preconizava os caras dos Titãs...!


Gershon Knispel, artista plástico de orígem judaica, em sua adolescência conviveu com árabes mulçumanos na Palestina até a ONU delimitar os territórios que culminariam na formação do Estado de Israel. Radicado no Brasil desde 1957, Knispel consolidou sua obra atravez de obras monumentais em paineis e paredes, primeiro a convite de Assis Chateubriand nos Diários Associados, edifício onde agora é a MTV, para depois deixar sua marca em outros pontos importantes do país. Sempre com uma mensagem de paz para a palestina e retratando o sofrimento de "seu povo',mas também o que ele vira no pais que adotara: O Brasil.

Em 1962, num artigo publicado para a Revista Brasiliênse, e logo depois da morte de Cândido Portinari, falou sobre o paralelo da sua obra e à do mestre que alçava vôos até a Europa, onde impressionou até mesmo o Duque de Windsor. No entanto, sua temática era a miséria e o drama humano, coisa de importância secudária para a Europa pós-guerra, e por que não ainda hoje.
artigo:
"Portinari, filho de camponeses, que os anos de infãncia marcaram seus temas tão insistentemente como se o perseguissem, rasga, golpeia com cores, brada com seu pincel e cria nos limites do plano o tremendo conflito humano que sentiu, respirou e viveu"
"... Suas emoções são imediatas, têm uma necessidade latente de criar uma obra genial. O eco de sua juventude repete-se cada vez mais forte, mais marcado, mais vibrante. Desde suas primeiras telas dos jogadores de futebol de Brosdósqui e seus trabalhos posteriores sobre a vida no campo, até os afrescos, nos quais os planos coloridos decorativos se entrelaçam com estilhaços de cor transparente, tudo isso são meios de organização, harmonizando-se com a arquitetura".
"Exposições de Portinari levaram a presença do Brasil a todos os continentes. A repercussão foi enorme. Expôs em Paris na Galeria Charpentier, onde os trabalhos de nosso menino do interior atrairam mesmo o Duque de Windsor, que muito se impressionou com a sua capacidade criadora, mas procurava se afastar dos temas de miséria. O Duque queria flores, mas Portinari respondeu: Flores não, só tenho miséria". (Gershon Knispel).

Knispel escreve mensalmente para a Revista Caros Amigos.

sábado, 15 de janeiro de 2011

While My Guitar Gently Weeps

Maravilhosa canção de George Harrison na voz de Eric Clapton e Paul McCartney, na ocasião do Tributo ao guitarrista no Royal Albert de Londres em 2003. Como em todas as músicas de George Harrisson, harmonia, surpresa, beleza e sempre uma viagem!
Com Clapton essa canção assume um tom ainda mais nostalgico e cinza, rememorando a dramaticidade da vida e a ação implacável do tempo. No entanto tudo é muito simples. São canções que vêm do coração.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O Corpo

A Igreja diz: o corpo é uma culpa;
A ciência diz: O corpo é uma máquina;
A publicidade diz: O corpo é um negócio;
O corpo diz: Eu sou uma festa!
Eduardo Galeano

"Somos escravizados por aquilo que criamos"

Essa frase foi proferida pela jornalista estrela Marília Gabriela, atualmente condutora do consagrado programa de entrevistas Roda Viva. Confesso que tive um susto quando vi um ícone da Televisão Comercial trabalhando nuna rede de TV pública, ainda mais se tratando do programa Roda Viva, palco das maiores personalidades do universo da política, economia, cultura e do pensamento em geral. Em suma, um programa nada compatível com a imagem da "Gabi", sempre polêmica, mas com um apelo mais direcionado ao entretenimento do que às idéas.
Mas vamos ao nosso objetivo, a frase. Ela não citou o autor, ou talvês seja apenas a síntese do pensamento de algum escritor ou de uma obra. No entanto me chamou atenção. Ainda mais que o entrevistado da ocasião era o sociólogo Roberto da Matta, intelectual que possui uma inspiradora história de vida, homem de esquerda lúcido, sem utopias, uns dos pensadores mais vívidos de nossa época. Acho que ele estava dizendo algo sobre o ciclo da vida, seus revezes, a sua constante reivenção pelos homens e suas idéias, ou, numa visão marxista, a 'vida' condicionando os homens a reelaborar suas idéias por meio das condições materiais.
O que me fez pensar foi mesmo a possível idéia subjacente á frase. Me fez rever tudo o que sei ou não sei sobre a vida, sobre mim. Em tudo o que estamos envolvidos, irremediavelmente, num drama Kafkiano, que se repete sem cessar, que também se liga ao nome do programa 'Roda Viva" e à música extasiante de Chico Buarque. Estamos envolvidos com quais tipos de condicionamentos? Que tipo de civilização criamos, que consegue erguer do nada uma Dubai, mas não tem recursos (ou vontade) de afastar o nada, a miséria, o sofrimento dos milhões de famintos do planeta?
Uma espécie de compensação psicológica apoderou-se de minha mente ao pensar que, mesmo os mais abastados da terra são escravos, condicionados por alguma coisa, que a liberdade é uma conquista diária, um reiventar da vida, uma superação constante. Como disse Da matta em certa altura da entrevista: "Nossa luta e retomada dos projetos acontece todo dia logo ao acordar". É a unica forma que temos para conquistar a liberdade e viver.
Ainda sim, continuo pensando. Eu, sempre na tentativa de enchergar o real de forma mais clara, por meio das idéias, me satisfaço muitas vezes em ver 'o que é" e deixar a superação, a transformação das coisas, para os homens de ação. Será mesmo que criamos estruturas que nos escravizam de alguma forma, mas ao mesmo tempo foram a concretização de nossa luta pela liberdade e pela vida?
- A Civilização
- A linguagem
- A Cultura
- O Trabalho
- A Religião
- A ciência
- A tecnologia
- Os paradigmas
- As eras
- O mundo
Deixo a pergunta no ar...

Rhaymer L.C

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

"Nem todo prazer é prazer estético"

Acabo de ministrar uma oficina sobre o papel do leitor em nossa sociedade. Os alunos eram jovens adolescentes de classe média e baixa (Escola Pública), na qual muitos de nós imputamos o estigma de maus leitores. Num determinado momento citei essa frase retirada do romance "Que enchente me carrega" do escritor Menalton Braff. A frase era do personagem Godofredo, desconfiado do ofício do seu amigo Firmino, que era a de confecionar sapatos. Godofredo massacrava seu intelocutor denegrindo o valor de sua 'arte', dizendo que ela não passava de mero artesanato. Da oficina de sapatos do Firmino à oficina de leitura em questão podemos tecer alguns paralelos:

O prazer da leitura é uma aquisição a longo prazo. Não é algo dado, acabado e de fácil apego. É uma amor sofrido e que vai se solidificando a cada experiência, e pode ser que nunca aconteça, pelos motivos que estamos 'carecas' de saber, a má formação e falta de habilidade dos professores que optam por impor um método de ensino arcaico, chato; os traumas e a birra dos alunos pelo texto; a competição com outras mídias muito mais atraentes e flexíveis, etc .O prazer da leitura é uma construção que, no final, resulta no prazer da realização, do entendimento e do clareamento da visão de mundo, além do encontro consigo mesmo. Mas o prazer pode ser apenas pelo contato com o texto, a palavra escrita, a história e os personagens. Como confeccionar sapatos, aqueles que trilham os caminhos da leitura sabem que possuem sua própria oficina. Nela construimos nosso mundo, o ser, elaboramos a vida e suportamos sua contradição com maior liberdade. Firmino diria que não tinha oficina, mas sim seu 'atelier", porque insistia que seu trabalho era pura arte, apesar dos sapatos não terem um fim contemplativo. Será? Acho que as mulheres vão chiar comigo e responder que sim! Mas eu não estou defendendo nem uma posição nem outra. Só estou provocando !
Então, uma oficina é menos nobre que um atelier? Durante a aula acabei mencionando a classificação baixa, média e alta literatura. A estética estabelece padrões para 'medir' o que é e o que não é boa literatura ou arte? Sapatos são só objetos de consumo, não são dignos de contemplação estética? Godofredo diria, irrevogalvemente, que não. Se eu leio Zíbia Gaspareto, Augusto Cury ou congêneres, isso significa, segundo essa tese, que estou imerso num texto superficial e esteticamente pobre, feito com muito trabalho sim, numa oficina de idéias descartáveis, nunca num atelier de arte, dizem. Ao contrário, segundo a estética, Kafka e Homero são citados como os supras sumos da estética literária, por motivos outros.
Pode até ser!! Mas uma coisa eu defendo aqui: disse aos meus alunos que só o mero contato com a palavra escrita já é um avanço e tanto. Mesmo a chamada baixa literatura pode oferecer chaves de leitura viáveis para textos mais seletos, nobres, outros textos. Pode despertar a curiosidade do leitor iniciante. Por que não trabalhar Hary Porter com os adolescentes e aos poucos ir migrando para textos mais complexos? Não apaguemos a pavio que fumega! Muitos escritores considerados obrigatórios hoje já escreveram textos nem tão nobres assim, como Érico Veríssimo, por exemplo.
Portanto, não é o caso de derrubar denhuma doutrina que estabelece uma hierarquia de valor dos prazeres ou dos tipos de texto literários, bem como uma hierarquia dos ofícios proposta por Godofredo, que possa ter certo fundamento advindo de alguma disciplina estética, filosófica, etc. Por outro lado, é fato que a indústria Cultural de Massa mercantiliza os bens culturais e oferece ao consumidor uma arte fragmentada, descartável, imposta por certos imperialismos econômicos e culturais. No entanto, ela tem muito da expressão popular genuína e também misturada, antropofágica, do jeito como o povo se vira em termos de música, livros, etc. Olha aí o texto do Ferréz. O samba já foi taxado de música de pobre e de vagabundo. Hoje é tocado por bandinhas insossas em festas e restaurantes finos de Nova York. Bebel Gilberto deita e rola por lá, apesar de não ter nada de insossa. Paulo Coelho está na Academia Brasileira de Letras. Até o Sarney, ora bolas !! Os motivos são outros, nem tanto pela questão que estou tentando fechar aqui.
Não tenho paciência para ler certas 'literaturas', mas detesto a idéia de criticar um jovem que, todo entusiasmado, vem me mostrar um livro da saga Crespúsculo e diz que agora tomou gosto pela leitura. Vamos criar pontes, e não derrubar as que já existem.
Prazer ou forma , pobre ou nobre, arte ou entretenimento? Essa dicotomia e realmente necessaria? Pode haver esclarescimento estético sem antes ter havido alguma alienação?
Nós, os amantes da leitura, precisamos ser mais longânimos com os que a detestam. Quase sempre eles tem motivos legítimos.
Alguem já disse que, se cortármos as ervas daninhas no início, corremos sério risco de arrancar também o que é nobre, a plantação. Elas se parecem muito. Deixamo-las crescerem juntas e no final a diferença será visível.

Rhaymer L. Campelo

sábado, 1 de janeiro de 2011

Rogério Skylab

Uma olhada diária no blog do escritor, músico e performista, não é nada de perda de tempo. Sempre com tiradas humoradas e, ao mesmo tempo, provocativas, Rogério Skylab é porta voz do imaginário coletivo, onde a matéria prima é o real. A loucura e a lucidêz vistas num mesmo plano... vale a pena!!

godardcity.blogspot.com

UM HOMEM TRANQUILO

Escuta o murmúrio
do homem tranquilo.
Por um triz não se tornou assassino
É sóbrio, cordato.
Teria trucidado a mãe.
Mas tem olhos serenos.
Um homem do bem.

SKYLAB/DEZEMBRO/2010

Rhaymer L. Campelo