“O Filho Eterno” aborda a síndrome sem ser didático ou piegas
O salto fatal entre o instante anterior, em que uma certa coisa existe somente enquanto esboço de realidade, e o momento imediato em que se descobre que esse esboço, já não muito promissor, estava equivocado. O que acontece é que a realidade trouxe nos braços algo infinitamente pior e inesperado. É desse choque de vida real que parte Cristóvão Tezza em “O filho Eterno”, em sua terceira edição pela Record e já considerada a obra máxima do escritor catarinense . A história - o relato de um pai que descobre que seu primogênito tem síndrome de down - passa muito longe do clichê do didatismo, de tentar “desmistificar o assunto”, “alertar a sociedade contra esse terrível problema” ou, pior, “acabar com o preconceito” das pessoas. O próprio narrador expõe o seu preconceito e sua vergonha do filho, sentimentos que chegam a ser acalentados com a probabilidade de uma morte prematura daquela criança. Ainda assim, nada muda o fato de que aquela criança é eterna, pois, constata, “o filho é a imagem mais próxima da idéia de destino, daquilo que você não escapa”.
Cru e pontiagudo, Tezza impressiona, mas não choca. Não choca porque percebe-se que o vulcão de sentimentos daquele pai não poderia ser descrito de qualquer outra maneira - ao menos que toda a autenticidade se perdesse em palavras gentis, corretas e resignadas. Nem tampouco é uma sensação de revolta cega que toma o personagem. Seu grande exercício é o de tentar aproximar dois conceitos que se provaram tão distintos e irreconciliáveis: o normal - que seria ter um filho completamente saudável - e o real - o filho que tem nas mãos, “com um bom estímulo, poderá chegar a cinqüenta ou sessenta por cento da inteligência de uma criança normal”.
Ter que lidar com o fantasma da paternidade, de saída, já era um tormento para a personalidade meio hippie, meio marginal do narrador. Ser pai de Felipe é aprender a aceitar o irreversível, quando até então ele tinha conseguido driblar tudo de aparentemente definitivo que tinha acontecido em sua vida. O autor mostra também que, nos anos 80, sociedade e comunidade científica ainda usavam com freqüência os termos “mongolóide” e “mongolismo” para explicar a doença, diferente do “especial” ou “excepcional”, nomenclaturas mais recorrentes hoje em dia. O romance é autobiográfico - Tezza tem um filho de 27 anos, portador de síndrome de Down, o mesmo Felipe.
Isto é feiúra? TESE DE MESTRADO NA USP por um PSICÓLOGO
'O HOMEM TORNA-SE TUDO OU NADA, CONFORME A EDUCAÇÃO QUE RECEBE'
'Fingi ser gari por 1 mês e vivi como um ser invisível'
Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da 'invisibilidade pública'. Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social.
Plínio Delphino, Diário de São Paulo.
O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou um mês como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo.
Ali,constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são 'seres invisíveis, sem nome'.
Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa. Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida:
'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência', explica o pesquisador.
O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano.
'Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão', diz. No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto.
Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, algunsse aproximavam para ensinar o serviço.
Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro.
Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse: 'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi. Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.
O que você sentiu na pele, trabalhando como gari? Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central.
Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu.
Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado. E depois de um mês trabalhando como gari? Isso mudou? Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão. E quando você volta para casa, para seu mundo real? Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais.
Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa.
Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador.
Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe.
Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma 'COISA'.
*Ser IGNORADO é uma das piores sensações que existem na vida!
Recebi em meu email, o que coloquei acima. Enquanto lia percebi que o sentimento do pai deste menino era o que ele não poderia lhe dar socialmente falando. Os pais as vezes buscam se realizar nos filhos. No caso deste pai nem filho queria... Assim que, digerir esta realidade era preciso ser muito desprendido, despretencioso, amante da vida...
Claro, que em algum momento da vida numa relação assim pode haver sentimentos que nascem de pensamentos que passam pela mente em momentos de desgastes ou não. Verdade?
5 comentários:
A síndrome de Down longe do clichê
Nataly Costa
“O Filho Eterno” aborda a síndrome
sem ser didático ou piegas
O salto fatal entre o instante anterior, em que uma certa coisa existe somente enquanto esboço de realidade, e o momento imediato em que se descobre que esse esboço, já não muito promissor, estava equivocado. O que acontece é que a realidade trouxe nos braços algo infinitamente pior e inesperado. É desse choque de vida real que parte Cristóvão Tezza em “O filho Eterno”, em sua terceira edição pela Record e já considerada a obra máxima do escritor catarinense . A história - o relato de um pai que descobre que seu primogênito tem síndrome de down - passa muito longe do clichê do didatismo, de tentar “desmistificar o assunto”, “alertar a sociedade contra esse terrível problema” ou, pior, “acabar com o preconceito” das pessoas. O próprio narrador expõe o seu preconceito e sua vergonha do filho, sentimentos que chegam a ser acalentados com a probabilidade de uma morte prematura daquela criança. Ainda assim, nada muda o fato de que aquela criança é eterna, pois, constata, “o filho é a imagem mais próxima da idéia de destino, daquilo que você não escapa”.
Cru e pontiagudo, Tezza impressiona, mas não choca. Não choca porque percebe-se que o vulcão de sentimentos daquele pai não poderia ser descrito de qualquer outra maneira - ao menos que toda a autenticidade se perdesse em palavras gentis, corretas e resignadas. Nem tampouco é uma sensação de revolta cega que toma o personagem. Seu grande exercício é o de tentar aproximar dois conceitos que se provaram tão distintos e irreconciliáveis: o normal - que seria ter um filho completamente saudável - e o real - o filho que tem nas mãos, “com um bom estímulo, poderá chegar a cinqüenta ou sessenta por cento da inteligência de uma criança normal”.
Ter que lidar com o fantasma da paternidade, de saída, já era um tormento para a personalidade meio hippie, meio marginal do narrador. Ser pai de Felipe é aprender a aceitar o irreversível, quando até então ele tinha conseguido driblar tudo de aparentemente definitivo que tinha acontecido em sua vida. O autor mostra também que, nos anos 80, sociedade e comunidade científica ainda usavam com freqüência os termos “mongolóide” e “mongolismo” para explicar a doença, diferente do “especial” ou “excepcional”, nomenclaturas mais recorrentes hoje em dia. O romance é autobiográfico - Tezza tem um filho de 27 anos, portador de síndrome de Down, o mesmo Felipe.
hello... hapi blogging... have a nice day! just visiting here....
Veja bem!
Isto é feiúra?
TESE DE MESTRADO NA USP por um PSICÓLOGO
'O HOMEM TORNA-SE TUDO OU NADA, CONFORME A EDUCAÇÃO QUE RECEBE'
'Fingi ser gari por 1 mês e vivi como um ser invisível'
Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da
'invisibilidade pública'. Ele comprovou que, em geral, as pessoas
enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado
sob esse critério, vira mera sombra social.
Plínio Delphino, Diário de São Paulo.
O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou
um mês como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo.
Ali,constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são 'seres
invisíveis, sem nome'.
Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa. Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição
de sua vida:
'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode
significar um sopro de vida, um sinal da própria existência', explica o
pesquisador.
O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano.
'Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão', diz.
No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto.
Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, algunsse aproximavam para ensinar o serviço.
Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro.
Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse:
'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi.
Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.
O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?
Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central.
Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo
andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu.
Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.
E depois de um mês trabalhando como gari? Isso mudou?
Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.
E quando você volta para casa, para seu mundo real?
Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está
inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais.
Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa.
Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador.
Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe.
Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo
nome. São tratados como se fossem uma 'COISA'.
*Ser IGNORADO é uma das piores sensações que existem na vida!
Respeito: passe adiante!
Recebi em meu email, o que coloquei acima. Enquanto lia percebi que o sentimento do pai deste menino era o que ele não poderia lhe dar socialmente falando. Os pais as vezes buscam se realizar nos filhos. No caso deste pai nem filho queria... Assim que, digerir esta realidade era preciso ser muito desprendido, despretencioso, amante da vida...
Claro, que em algum momento da vida numa relação assim pode haver sentimentos que nascem de pensamentos que passam pela mente em momentos de desgastes ou não. Verdade?
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