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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

"Nem todo prazer é prazer estético"

Acabo de ministrar uma oficina sobre o papel do leitor em nossa sociedade. Os alunos eram jovens adolescentes de classe média e baixa (Escola Pública), na qual muitos de nós imputamos o estigma de maus leitores. Num determinado momento citei essa frase retirada do romance "Que enchente me carrega" do escritor Menalton Braff. A frase era do personagem Godofredo, desconfiado do ofício do seu amigo Firmino, que era a de confecionar sapatos. Godofredo massacrava seu intelocutor denegrindo o valor de sua 'arte', dizendo que ela não passava de mero artesanato. Da oficina de sapatos do Firmino à oficina de leitura em questão podemos tecer alguns paralelos:

O prazer da leitura é uma aquisição a longo prazo. Não é algo dado, acabado e de fácil apego. É uma amor sofrido e que vai se solidificando a cada experiência, e pode ser que nunca aconteça, pelos motivos que estamos 'carecas' de saber, a má formação e falta de habilidade dos professores que optam por impor um método de ensino arcaico, chato; os traumas e a birra dos alunos pelo texto; a competição com outras mídias muito mais atraentes e flexíveis, etc .O prazer da leitura é uma construção que, no final, resulta no prazer da realização, do entendimento e do clareamento da visão de mundo, além do encontro consigo mesmo. Mas o prazer pode ser apenas pelo contato com o texto, a palavra escrita, a história e os personagens. Como confeccionar sapatos, aqueles que trilham os caminhos da leitura sabem que possuem sua própria oficina. Nela construimos nosso mundo, o ser, elaboramos a vida e suportamos sua contradição com maior liberdade. Firmino diria que não tinha oficina, mas sim seu 'atelier", porque insistia que seu trabalho era pura arte, apesar dos sapatos não terem um fim contemplativo. Será? Acho que as mulheres vão chiar comigo e responder que sim! Mas eu não estou defendendo nem uma posição nem outra. Só estou provocando !
Então, uma oficina é menos nobre que um atelier? Durante a aula acabei mencionando a classificação baixa, média e alta literatura. A estética estabelece padrões para 'medir' o que é e o que não é boa literatura ou arte? Sapatos são só objetos de consumo, não são dignos de contemplação estética? Godofredo diria, irrevogalvemente, que não. Se eu leio Zíbia Gaspareto, Augusto Cury ou congêneres, isso significa, segundo essa tese, que estou imerso num texto superficial e esteticamente pobre, feito com muito trabalho sim, numa oficina de idéias descartáveis, nunca num atelier de arte, dizem. Ao contrário, segundo a estética, Kafka e Homero são citados como os supras sumos da estética literária, por motivos outros.
Pode até ser!! Mas uma coisa eu defendo aqui: disse aos meus alunos que só o mero contato com a palavra escrita já é um avanço e tanto. Mesmo a chamada baixa literatura pode oferecer chaves de leitura viáveis para textos mais seletos, nobres, outros textos. Pode despertar a curiosidade do leitor iniciante. Por que não trabalhar Hary Porter com os adolescentes e aos poucos ir migrando para textos mais complexos? Não apaguemos a pavio que fumega! Muitos escritores considerados obrigatórios hoje já escreveram textos nem tão nobres assim, como Érico Veríssimo, por exemplo.
Portanto, não é o caso de derrubar denhuma doutrina que estabelece uma hierarquia de valor dos prazeres ou dos tipos de texto literários, bem como uma hierarquia dos ofícios proposta por Godofredo, que possa ter certo fundamento advindo de alguma disciplina estética, filosófica, etc. Por outro lado, é fato que a indústria Cultural de Massa mercantiliza os bens culturais e oferece ao consumidor uma arte fragmentada, descartável, imposta por certos imperialismos econômicos e culturais. No entanto, ela tem muito da expressão popular genuína e também misturada, antropofágica, do jeito como o povo se vira em termos de música, livros, etc. Olha aí o texto do Ferréz. O samba já foi taxado de música de pobre e de vagabundo. Hoje é tocado por bandinhas insossas em festas e restaurantes finos de Nova York. Bebel Gilberto deita e rola por lá, apesar de não ter nada de insossa. Paulo Coelho está na Academia Brasileira de Letras. Até o Sarney, ora bolas !! Os motivos são outros, nem tanto pela questão que estou tentando fechar aqui.
Não tenho paciência para ler certas 'literaturas', mas detesto a idéia de criticar um jovem que, todo entusiasmado, vem me mostrar um livro da saga Crespúsculo e diz que agora tomou gosto pela leitura. Vamos criar pontes, e não derrubar as que já existem.
Prazer ou forma , pobre ou nobre, arte ou entretenimento? Essa dicotomia e realmente necessaria? Pode haver esclarescimento estético sem antes ter havido alguma alienação?
Nós, os amantes da leitura, precisamos ser mais longânimos com os que a detestam. Quase sempre eles tem motivos legítimos.
Alguem já disse que, se cortármos as ervas daninhas no início, corremos sério risco de arrancar também o que é nobre, a plantação. Elas se parecem muito. Deixamo-las crescerem juntas e no final a diferença será visível.

Rhaymer L. Campelo

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